Automação

Projetos no Claude: o que colocar em instruções, contexto, memória e tarefas programadas

Instruções, contexto, memória e tarefas programadas têm funções diferentes nos projetos do Claude. O que vai em cada campo, com modelos prontos para adaptar.

Quase todo mundo começa um projeto no Claude do mesmo jeito: cola um parágrafo no campo de instruções, sobe dois ou três PDFs e começa a conversar. Na primeira semana, funciona. Na terceira, as respostas estão genéricas, o Claude repete perguntas que você já respondeu e os documentos de referência ficaram desatualizados sem que ninguém percebesse.

O problema quase nunca está no modelo. Está na configuração. Um projeto tem quatro campos, e cada um cumpre uma função diferente. Quando essas funções se misturam — regras no contexto, briefing nas instruções —, o Claude perde a noção do que é norma, do que é consulta e do que é histórico.

Este guia explica o que vai em cada campo e traz modelos prontos para adaptar.

Onde ficam esses campos

No Claude Cowork, os projetos reúnem tarefas relacionadas em espaços de trabalho próprios, cada um com seus arquivos, contexto, instruções e memória. Eles funcionam da mesma forma no Cowork e no chat do Claude, mas é no Cowork que os quatro campos aparecem juntos. O recurso exige a versão mais recente do Claude Desktop, segundo a central de ajuda da Anthropic.

Quem já tem projetos no chat não precisa recomeçar: na importação, o Cowork copia os arquivos e as instruções do projeto existente para o novo. Uma divisão que costuma funcionar bem é usar o chat para pensar e pesquisar, e o Cowork para produzir.

Instruções: como o Claude deve trabalhar

Neste campo você define tom, formatação e regras que valem para todas as tarefas do projeto. Como o texto acompanha cada conversa, ele só deve conter o que não muda. Descrição de cliente, lista de serviços e histórico de negociação ficam fora daqui.

Um bom texto de instruções responde a cinco perguntas: qual é o papel do Claude, qual é o objetivo do projeto, quem vai ler o resultado, como deve ser o texto e o que ele nunca deve fazer. Escreva em frases imperativas e específicas. "Seja claro" não orienta ninguém. "Abra cada documento com a tese principal em até duas frases" orienta.

O modelo abaixo é de um projeto de consultoria em IA voltado a prospecção e propostas comerciais:

Papel
Você atua como consultor sênior de estratégia em IA para empresas B2B brasileiras de médio porte. Seu trabalho é apoiar a prospecção, o diagnóstico e a elaboração de propostas.

Objetivo
Transformar conversas iniciais em propostas com escopo fechado e valor de negócio mensurável.

Público
Diretores de operações, marketing e vendas: pouco técnicos, com pouco tempo e que decidem com base em impacto, prazo e risco.

Estilo
- Português brasileiro, prosa direta e frases declarativas.
- Todo documento abre com a tese principal em até duas frases.
- Sem emoji e sem jargão vazio.
- Termos técnicos só quando necessários, explicados na primeira ocorrência.

Padrões de entrega
- Propostas seguem esta ordem: contexto, problema, solução, escopo, fora do escopo, cronograma, premissas e investimento.
- Todo benefício citado vem acompanhado da métrica que vai medi-lo.
- Prazos são apresentados em faixas, com as premissas explícitas.

Regras
- Não invente dados, cases ou números. Se faltar informação, pergunte antes de redigir.
- Sinalize riscos de LGPD sempre que a solução envolver dados pessoais.
- Quando uma recomendação não tiver base sólida, diga isso.
- Consulte os arquivos de contexto antes de citar serviços, preços ou metodologia.

A última regra é a mais importante: ela liga as instruções ao contexto e impede que o Claude preencha lacunas com suposições.

Contexto: o que o Claude deve consultar

Aqui entram as referências. O campo aceita uma pasta do computador, um projeto do chat vinculado ou uma URL colada. Portfólio, tabela de preços, metodologia, cases, guia de marca e modelos de documento ficam neste campo.

Duas práticas fazem diferença. A primeira é manter um assunto por arquivo, com nome descritivo: um PDF de 60 páginas com tudo junto é mais difícil de consultar do que sete arquivos curtos. A segunda é criar um arquivo-índice que explique o que existe e qual fonte prevalece em caso de conflito:

00-LEIA-PRIMEIRO.md

Material de referência oficial da consultoria. Em caso de conflito entre arquivos, vale o de data mais recente.

- 01-portfolio-servicos.md: serviços, entregáveis e formatos de contratação
- 02-tabela-precos-2026.md: faixas de investimento. Não cite valores fora desta tabela.
- 03-metodologia.md: etapas do diagnóstico e da implementação, com duração típica
- 04-cases.md: projetos autorizados para citação, com resultados
- 05-icp.md: perfil de cliente ideal e critérios de desqualificação
- 06-modelo-proposta.md: estrutura de proposta aprovada
- 07-objecoes.md: objeções comuns e respostas validadas

Revisão trimestral de preços e cases. Última revisão: [data].

Outro detalhe útil: a pasta que guarda o contexto não precisa ser a mesma em que os resultados são salvos. Isso ajuda quando vários projetos consultam a mesma pasta de referência e cada um entrega em um lugar diferente, como mostra este guia do The Signal.

Memória: o que já foi decidido

A memória guarda o contexto do trabalho feito dentro do projeto. Ela vale só para aquele projeto e vem ativada por padrão. Diferentemente das instruções, esse campo não é preenchido de uma vez: ele se forma com o uso.

Você influencia a memória pelo que diz durante o trabalho. Pedidos explícitos geram registros mais úteis do que deixar o Claude deduzir:

Registre: a Empresa X tem ciclo de aprovação de 45 dias e exige parecer jurídico antes da assinatura.

Registre como padrão deste projeto: propostas acima de [valor] sempre incluem uma fase-piloto paga.

Corrija: o serviço de governança agora se chama "Programa de Governança de IA".

Esqueça a negociação com a Empresa Y. O processo foi encerrado.

Vale registrar decisões, padrões aprovados, correções que você repete com frequência e o status de clientes em andamento. Não vale registrar rascunhos, dados sensíveis ou qualquer coisa que já esteja nos arquivos de contexto: informação duplicada em dois lugares acaba divergindo.

Como a memória não passa de um projeto para outro, clientes e frentes de trabalho diferentes devem ter projetos separados.

Tarefas programadas: o que roda sem você

Com as tarefas programadas, você descreve um trabalho uma vez e o Claude o executa no horário definido, entregando relatórios, briefings e resumos. Dentro de um projeto, essas tarefas pertencem só àquele projeto.

Antes de configurar, vale conhecer três características do recurso, descritas na documentação de tarefas programadas:

  • Rodam na nuvem. A tarefa executa no horário marcado mesmo com o computador em repouso ou o Claude Desktop fechado.
  • Trabalham com conectores e arquivos da conta. Elas não podem ser vinculadas a uma pasta do computador, e uma tarefa que dependa de arquivos ou aplicativos locais só roda localmente. Por isso, arquivos citados nos prompts, como 05-icp.md, precisam estar salvos na sua conta Claude.
  • Exigem plano pago. O recurso está disponível nos planos Pro, Max, Team e Enterprise, com frequência por hora, diária, semanal, em dias úteis ou manual.

Como ninguém acompanha a execução, o prompt precisa se sustentar sozinho: deve dizer o que pesquisar, em quais fontes, em que formato entregar e o que ignorar. Três exemplos:

Radar semanal de mercado (segunda-feira, 8h)

Pesquise as notícias dos últimos 7 dias sobre adoção de IA generativa em empresas brasileiras, regulação de IA no Brasil e lançamentos de ferramentas de IA para atendimento, vendas e marketing.

Entregue no máximo 8 itens. Para cada um: o fato em uma frase, a fonte com link e uma linha sobre como isso afeta a conversa com clientes.

Ignore conteúdo promocional, rankings sem metodologia e notícias com mais de 7 dias. Se um tema não tiver novidade na semana, informe isso em uma linha.

Lista de prospecção (quarta-feira, 9h)

Com base em 05-icp.md, identifique até 10 empresas brasileiras com sinais recentes de interesse em IA: vagas na área, expansão, rodada de investimento ou declarações de executivos nos últimos 14 dias.

Para cada empresa, informe: nome, setor, porte estimado, sinal encontrado (com link) e um gancho de abordagem em uma frase.

Exclua as empresas que se enquadrem nos critérios de desqualificação. Não invente contatos nem dados que não estejam em fontes públicas.

Revisão de objeções (sexta-feira, 10h)

Leia 07-objecoes.md e pesquise argumentos recentes sobre custo, risco e retorno de projetos de IA.

Sugira até 3 ajustes nas respostas existentes e até 2 objeções novas, cada uma com a fonte que motivou a sugestão.

Não altere o arquivo. Entregue as sugestões para aprovação.

A última linha do terceiro exemplo segue uma boa regra para qualquer tarefa automática: tudo o que altera material oficial passa por aprovação humana.

Como os quatro campos se completam

Cada campo responde a uma pergunta:

  • Instruções: como trabalhar.
  • Contexto: o que consultar.
  • Memória: o que já foi decidido.
  • Tarefas programadas: o que acontece sem você.

Quando uma informação parece caber em dois campos, pergunte com que frequência ela muda. Regras permanentes vão para as instruções. Material de referência vai para o contexto. Fatos que surgem do trabalho diário ficam na memória.

Nenhuma dessas configurações fica certa na primeira versão. Leia os resultados das primeiras execuções, anote o que faltou e o que sobrou, e ajuste. Um projeto bem configurado é resultado de três ou quatro rodadas desse ajuste.

A leitura da Tyna

Os quatro campos de um projeto são uma versão em miniatura do que uma empresa precisa para usar IA com controle. As instruções equivalem à política de uso de IA: regras escritas, que valem para toda tarefa. O contexto é a fonte oficial, com dono e data de revisão. A memória é o registro de decisões. E as tarefas programadas são automação — o ponto em que, sem revisão humana, o erro se repete toda semana sem ninguém ver, como tratamos em governança de agentes de IA.

Dois cuidados valem para qualquer time que adote esse modelo. O primeiro é a LGPD: memória e arquivos de contexto são lugares por onde dado pessoal entra sem que ninguém decida, como nome de contato, telefone e detalhes de negociação. A regra de não registrar dados sensíveis deve valer também para dados pessoais de clientes, e o assunto está detalhado em LGPD e IA. O segundo é a responsabilidade: quando o projeto vira ferramenta do time, alguém precisa responder pela revisão trimestral do contexto. Sem dono, o arquivo-índice envelhece e o Claude passa a citar preço antigo com toda a confiança.

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